Meus clientes, nunca pacientes: a revolução afetiva de Nise da Silveira
Nise da Silveira ocupa um lugar singular na história da saúde mental brasileira ao recolocar a questão do sujeito no centro da clínica.

Formada em Medicina em uma época marcada por práticas psiquiátricas violentas e desumanizantes, ela se insurgiu contra um modelo que reduzia pessoas em sofrimento psíquico a diagnósticos, contenções e protocolos rígidos. Em vez de partir do sintoma como rótulo, Nise se orientava pela pergunta: quem é este alguém que sofre – e como esse sofrimento fala de sua história, de seus afetos e de seus vínculos? Nesse gesto, já se anuncia a revolução que ela promoveu: uma clínica atravessada por afeto, criatividade e respeito radical à singularidade.
“Clientes”, nunca pacientes
Um dos traços mais marcantes da sua atuação era recusar chamar de “pacientes” aqueles que atendia. Para Nise, “paciente” evocava passividade, significava padecer, estar à mercê do saber médico. Ao adotar o termo “cliente”, ela deslocava simbolicamente essa relação: não se tratava de um consumidor de serviço, mas de alguém que participa, cria, sente e se responsabiliza pelo seu caminho terapêutico. Chamar de cliente devolvia dignidade, movimento e autoria a quem buscava cuidado, marcando uma clínica viva, onde o sujeito é agente de sua própria transformação.

Ateliês de arte, prontuários imagéticos e clínica do afeto
Relegada à terapia ocupacional do Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro, Nise aproveitou o espaço para inaugurar uma abordagem inovadora: ateliês de arte, oficinas de expressão plástica, música, teatro, jardinagem. Lá, homens e mulheres – antes chamados de “crônicos” ou “sem recuperação” – tornaram-se produtores de imagens, esculturas e gestos. Cada produção era um “prontuário imagético”: a partir do desenho, da pintura, da modelagem, revelavam-se paisagens internas, medos, fantasias e esperanças desses sujeitos. Os trabalhos passaram a ser visto como registros valiosos para uma compreensão singular da saúde mental, fora dos limites do diagnóstico clássico. Ao tratar essas criações com respeito clínico e estético, Nise indicava que, por trás do sintoma, existia sempre um universo em busca de forma e sentido.

Nesse contexto, o laço afetivo nunca era mero adorno: era fundamento técnico, eixo de uma clínica que só se faz de verdade quando inclui o vínculo, o cuidado e o respeito pela subjetividade do outro. Nise minimizava símbolos hierárquicos, evitava jalecos, cuidava para que o ambiente fosse mais horizontal, servindo como mediadora simbólica, não como autoridade vertical.
O diálogo com Jung e a legitimação simbólica
A observação do surgimento espontâneo de mandalas nas obras feitas nos ateliês foi um divisor de águas para Nise. Intrigada, ela escreveu uma carta diretamente a Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica, anexando fotos das produções dos clientes. Jung respondeu pessoalmente, reconhecendo aquelas imagens como mandalas autênticas, manifestações do inconsciente coletivo segundo sua teoria. Jung mostrou-se interessado, incentivou Nise a aprofundar-se no campo dos símbolos e da mitologia, e chegou a convidá-la para apresentar suas descobertas no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique.

O contato foi decisivo não apenas por conferir validação internacional ao seu método, mas também pelo aprofundamento da leitura simbólica e do valor científico das imagens. Com Jung, Nise consolidou a tese de que a arte podia ser via privilegiada para acessar e transformar o universo psíquico, ampliando o alcance da clínica pela via do simbólico.

Implicações para a Psicanálise Clínica e conclusão
A experiência e a postura de Nise abrem um horizonte de reflexão essencial para a Psicanálise Clínica. O modo como nomeamos o outro (paciente, cliente, analisando, sujeito) não é detalhe terminológico, mas uma escolha que desenha lugares e expectativas no vínculo terapêutico. O legado da Dra. Nise convida a revisar práticas e a colocar o encontro, a fala e a experiência singular como eixo do tratamento. Sua trajetória inspira formas de clínica em que teoria, ética e afeto se atravessam – e onde, antes de qualquer diagnóstico, está o sujeito em seu protagonismo.
Tratar alguém como cliente, para Nise, era afirmar uma clínica da autoria, onde a escuta, o respeito e a expressão simbólica são motores fundamentais do cuidado. Sua revolução afetiva nos lembra que nenhuma técnica, por si só, substitui a singularidade do encontro – a clínica só vive plenamente quando reconhece quem chega não como paciente, mas como sujeito em processo, autor de si e protagonista de sua própria narrativa.

Olhar Clínico: O sentir antes da técnica
Para mim, como professora, esse legado de Nise atravessa diretamente o modo como o verdadeiro olhar clínico é ensinado aos meus alunos. Olhar clínico, aqui, não é apenas domínio de teoria, técnica ou classificação diagnóstica; é, antes de tudo, capacidade de sentir quem chega ao setting analítico, de sustentar a presença diante do sofrimento, de enxergar a pessoa para além do rótulo que a acompanha. É esse “ver além” que permite que o encontro analítico não se resuma a aplicar conceitos, mas a acolher uma história em movimento, com toda a complexidade e ambiguidade que ela carrega.
Por isso, a minha preocupação central na formação de novos profissionais em saúde emocional e mental é que aprendam a priorizar o sentir antes de qualquer implicação acadêmica ou psicoterapêutica. A teoria é fundamental, mas só ganha vida quando se deixa atravessar pela experiência concreta do sujeito que ali está, com sua biografia, seus vínculos, suas feridas e seus recursos internos. Ensinar isso significa convidá-los a ouvir o que há de humano antes do que há de patológico, a reconhecer, em cada cliente, um processo de construção de si que começou muito antes da chegada ao consultório e seguirá muito depois do término da análise.
Nessa perspectiva, a clínica passa a ser menos um lugar de correção e mais um espaço de co-construção de sentido. A cada encontro, o que se tece não é apenas um plano terapêutico, mas a possibilidade de o sujeito se apropriar de sua própria história, de compreender como se constituiu e como pode reposicionar-se diante de si e do mundo. É essa reconstrução contínua – essa obra aberta que cada um é – que habilita a pessoa a ser quem realmente é, para além das expectativas externas e dos rótulos que a atravessaram ao longo da vida. Ao insistir nesse caminho, reafirmo, com Nise, que não há clínica sem sujeito, não há cuidado sem afeto e não há formação séria em saúde mental que não coloque, em primeiro lugar, a dignidade de quem nos confia sua dor e sua possibilidade de reinvenção.
Eu sou Márcia Morais Ávila, apaixonada por ensinar tudo o que aprendo, e consciente de que a minha vida tem um propósito de Deus a ser cumprido.
