A Interpretação dos Sonhos Através do Olhar Neuropsicanalítico
O que o cérebro faz com nossos afetos enquanto dormimos: uma jornada entre Freud e a Neurociência Afetiva

Quando se fala em interpretação de sonhos, o imaginário popular rapidamente associa o tema a adivinhação, misticismo e simbologias prontas, como se cada elemento onírico tivesse um "significado universal" independente da história de quem sonha. A perspectiva neuropsicanalítica segue um caminho muito diferente: o sonho não é um oráculo, mas uma cena construída pelo cérebro a partir das experiências, afetos e conflitos do próprio sujeito, em diálogo com sua narrativa de vida desperta.
Do Desejo Freudiano ao Afeto Regulado
Para Freud, o sonho é a realização disfarçada de um desejo, mas "desejo" aqui não é vontade consciente e simples gosto pessoal. Trata-se de uma força psíquica que insiste, retorna e procura brechas para se expressar, mesmo quando encontra censura e proibição. O Superego, a nossa instância moral e repressora, atua fortemente na vigília, inibindo a realização direta de muitos desejos; durante o sono, porém, essa censura fica parcialmente atenuada, permitindo que o Id coloque seus conteúdos em cena, ainda que de forma simbólica.
A Neurociência Afetiva ajuda a dar corpo a essa ideia: sonhar é também um modo de o cérebro tentar regular afetos intensos como: raiva, medo, frustração, desejo, tristeza, necessidade de vínculo, para que o organismo retorne à homeostase, isto é, a um certo equilíbrio interno. Em vez de "prever o futuro", o sonho mostra como o psiquismo está lidando com o passado e o presente afetivo do sujeito.
Sonho Não é Misticismo, Mas Isso Não Exclui a Fé
Na clínica, a interpretação de sonhos não se apoia em tabelas genéricas de símbolos, mas na relação entre a narrativa onírica e a narrativa desperta do paciente: como ele fala dos seus vínculos, da sua história, dos seus conflitos, e como isso aparece, deslocado ou condensado, nas cenas do sonho. Família, amigos, ex-parceiros, filhos, vizinhos ou desconhecidos que aparecem nos sonhos são lidos como representações e projeções de aspectos do próprio sujeito, de seus afetos, defesas e necessidades.
Isso não invalida a experiência espiritual de quem crê em sonhos proféticos; apenas coloca campos diferentes em seus devidos lugares. A Neuropsicanálise trabalha com o que é observável em termos de conflito psíquico, regulação afetiva e funcionamento cerebral, enquanto a fé se ocupa da relação do sujeito com o transcendente, temas que podem dialogar, mas não se confundem.

Os Mecanismos Invisíveis: Condensação, Deslocamento e Figurabilidade (Freud em A Interpretação dos Sonhos - 1900)
Freud descreveu os processos pelo quais o sonho constrói suas narrativas. A condensação une múltiplas memórias e afetos em uma única imagem, é como se o cérebro usasse um mecanismo de economia de representação. O deslocamento migra a carga emocional de um conteúdo ameaçador para algo menos arriscado, permitindo a regulação pelo disfarce. A figurabilidade transforma o abstrato em cenas imagéticas, porque, durante o sono, o controle racional está reduzido.
Segundo Solms (sonho como trabalho afetivo), a Neurociência Afetiva de Panksepp (sistemas emocionais) e a linha empírica de Moser/Fischmann e ZDPCS (sonhos como simulações que regulam afetos) na linguagem neuropsicanalítica moderna, esses mecanismos são tentativas do aparelho neuropsíquico de regular afetos intensos por meio de simulações narrativas, garantindo equilíbrio energético e proteção do Eu.

Zurich Dream Process Coding System: Quando o Sonho Vira Dado Clínico
Um dos desenvolvimentos mais interessantes nessa área é o Zurich Dream Process Coding System (ZDPCS), criado por Ulrich Moser e colaboradores. Em vez de perguntar "o que esse símbolo significa?", o método pergunta "como este sonho mostra a maneira como a pessoa regula seus afetos e lida com conflitos?". Para isso, o relato do sonho é dividido em unidades narrativas e cada parte é codificada de forma sistemática, observando, por exemplo:
- Como os personagens se relacionam: aproximação, ataque, fuga, cuidado, indiferença.
- Se a cena tende mais à busca de segurança/controle ou à abertura para envolvimento afetivo.
- Se há possibilidades de reparação, transformação ou se tudo termina em ruptura, congelamento ou colapso.
Estudos mostram que esse tipo de codificação está ligado a algo clinicamente muito relevante: pacientes com funcionamento de personalidade mais fragilizado tendem a ter sonhos com menos capacidade de regulação, mais ruptura e mais evasão, enquanto, com o avanço da psicoterapia, os sonhos vão mostrando interações mais complexas, maior flexibilidade e mais recursos para transformar situações difíceis na narrativa onírica
O Que Isso Muda Na Prática Clínica?
Na perspectiva neuropsicanalítica, interpretar sonhos hoje significa, em linhas gerais:
- Mapear o afeto predominante (medo, raiva, perda, culpa, desejo, curiosidade, necessidade de vínculo).
- Identificar o problema motivacional: o que o psiquismo está tentando resolver, evitar, reparar ou compreender.
- Observar os mecanismos de defesa na cena (fuga, ataque, idealização, controle, repetição).
- Conectar o sonho à história afetiva e aos vínculos reais do paciente.
- Avaliar a função daquele sonho: descarregar tensão, preservar o sono, ensaiar uma solução, elaborar traumas ou lutos, organizar o self.
Essa abordagem privilegia a integração entre psicanálise, neurociências e métodos empíricos, afastando tanto a redução biologizante ("é só descarga neuronal") quanto o misticismo descolado da subjetividade concreta. O sonho aparece, então, como uma ponte viva entre desejo e afeto: uma simulação organizada em que o cérebro trabalha, silenciosamente, para dar um destino possível às emoções que não encontram lugar durante o dia.

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O diálogo entre a Mente e o Cérebro
O grande mérito de Freud foi afirmar que o sonho tem lógica e função psíquica. Mark Solms e a Neurociência Afetiva de Jaak Pankseep, ampliaram essa compreensão ao mostrar que essa lógica encontra fundamento nos sistemas emocionais básicos do cérebro. O desenvolvimento de instrumentos científicos como o ZDPCS oferece aos clínicos e pesquisadores a possibilidade de investigar empiricamente transformações oníricas e sua relação com mudança psicológica.
Assim, a Neuropsicanálise pode reformular a frase clássica de Freud com profundidade adicional:
O sonho é a realização possível (e frequentemente disfarçada) de uma necessidade afetiva em busca de regulação, vínculo, sentido e continuidade do self, um trabalho organizado do cérebro que merece ser compreendido na intersecção entre a singularidade do sujeito e a universalidade dos processos neuroafetivos.
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Se você ficou intrigado, com essas ideias sobre como nossos sonhos funcionam como cenários de regulação emocional, como a psicanálise dialoga com as neurociências, e como métodos como o ZDPCS ajudam a mapear processos psíquicos profundos, convidamos você a baixar o artigo acadêmico completo sobre o tema.
O artigo completo oferece:
- Análise detalhada da teoria de Freud e suas raízes no "Projeto para uma Psicologia Científica"
- A contribuição revolucionária de Mark Solms e a reposição do sonho nos sistemas motivacionais do cérebro
- Explicação aprofundada dos sistemas emocionais de Panksepp e sua manifestação nos sonhos
- Descrição técnica do Zurich Dream Process Coding System com estudos de aplicação clínica
- Referências completas e validadas de pesquisas contemporâneas sobre trauma, depressão e regulação afetiva em sonhos
- ·Metodologia prática para clínicos e pesquisadores que trabalham com interpretação de sonhos
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Márcia Morais Ávila, Neuropsicanalista - registro 1655-01/ABEN
ABEN – Associação Brasileira de Estudos em Neuropsicanálise
Método de Codificação dos Sonhos - Zurich Dream Process Coding System (ZDPCS)
Saiba Mais com Professor Psicanalista especialista em Neuropsicanálise Eduardo Schmidt
Confira abaixo a análise desenvolvida pelo NotebookLM para melhor compreensão.
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Material de Estudo
Eu sou Márcia Morais Ávila, apaixonada por ensinar tudo o que aprendo, e consciente de que a minha vida tem um propósito de Deus a ser cumprido.
