Segurança psicológica corporativa: o pilar invisível da alta performance e da nova NR-1 ​

Márcia Morais Ávila • 9 de janeiro de 2026

Segurança psicológica deixou de ser um tema “soft” para se tornar eixo estratégico da gestão corporativa. A partir das pesquisas de Amy C. Edmondson, na Harvard Business School, o conceito ganha força ao mostrar que equipes só atingem alta performance quando podem falar, errar e aprender sem medo de punição ou humilhação. Com a nova NR-1 reforçando o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e a atenção aos riscos psicossociais, segurança psicológica passa a conectar diretamente produtividade, saúde mental e conformidade legal dentro das organizações.

O que significa segurança psicológica?


Amy Edmondson cunhou o termo “team psychological safety” ao investigar equipes de trabalho em hospitais e organizações de alta complexidade, observando que os times mais eficazes eram justamente aqueles em que as pessoas relatavam mais erros, e não menos. Isso a levou a formular a ideia de que segurança psicológica é uma crença compartilhada de que o ambiente é seguro para assumir riscos interpessoais, isto é, para falar, perguntar, discordar e admitir falhas sem medo de punição ou humilhação.​


Em suas obras, Edmondson reforça que segurança psicológica não significa ser “bonzinho” ou evitar conflitos, mas sim criar um contexto em que a franqueza seja possível e as conversas difíceis possam acontecer com respeito e foco em aprendizagem. Em outras palavras, trata-se de reduzir o medo social (medo do julgamento, da culpa e da exposição) para aumentar a abertura à colaboração, à inovação e à melhoria contínua.


Da “zona de ansiedade” à “zona de alta performance”


Um dos aportes mais relevantes de Amy Edmondson é mostrar que segurança psicológica não é oposta à exigência de resultados, mas complementar. Ela descreve uma matriz em que se cruzam dois eixos: o nível de cobrança (padrões de desempenho) e o nível de segurança psicológica, gerando diferentes “zonas” de funcionamento de uma equipe.​


Quando há alta cobrança e baixa segurança psicológica, a equipe entra na chamada “zona de ansiedade”: as pessoas trabalham sob medo, evitam se expor, escondem erros e reduzem iniciativas, o que sabota a performance sustentável. Já quando a segurança é alta, mas a cobrança é baixa, o time escorrega para uma “zona de conforto”, em que o clima pode até ser agradável, porém sem foco em resultados e sem senso de urgência.​


A combinação mais poderosa é a de alta segurança psicológica com metas claras e desafios elevados, que Edmondson associa à “learning zone”, frequentemente vinculada a alta performance. Nesse cenário, as pessoas se sentem autorizadas a experimentar, aprender rapidamente com erros, assumir responsabilidades e buscar padrões mais altos de entrega, porque sabem que não serão envergonhadas ou punidas por levantar a mão e dizer “tem algo errado aqui”.


Como a segurança psicológica impacta produtividade e desempenho


Do ponto de vista da produtividade, a segurança psicológica atua como um habilitador de comportamentos essenciais à alta performance em contextos complexos: comunicação aberta, colaboração, experimentação e aprendizagem contínua. Estudos mostram que equipes com alto nível de segurança psicológica tendem a relatar problemas mais cedo, pedir ajuda com maior frequência, compartilhar conhecimento e participar mais ativamente de decisões.​


Esses comportamentos “invisíveis” reduzem retrabalho, previnem falhas graves, aceleram a resolução de problemas e ampliam a capacidade de inovação, o que se traduz em melhor desempenho organizacional. Projetos complexos dependem da circulação honesta de informações: se uma pessoa percebe um risco, mas se cala por medo, a produtividade futura do time será comprometida pela falha não prevenida.​


Além disso, a segurança psicológica está relacionada à saúde mental no trabalho, já que diminui a carga de estresse associada à vigilância constante, ao medo de errar e à necessidade de “atuar” para parecer sempre competente. Em contextos mais seguros, o nível de energia psíquica gasto em defesa e autocensura diminui, liberando recursos para foco, criatividade e engajamento genuíno com o trabalho.


Segurança psicológica como ponto de reflexão na NR-1


Quando ampliamos o olhar para a legislação trabalhista e as Normas Regulamentadoras, a segurança psicológica também passa a ser um ponto de reflexão importante ao falarmos da NR-1. Se a norma estabelece diretrizes gerais para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e a organização do trabalho, incluindo a identificação de perigos e a prevenção de agravos à saúde, torna-se coerente considerar os riscos psicossociais e o clima de medo, humilhação ou silêncio como fatores que impactam diretamente a integridade do trabalhador e a eficácia do sistema de gestão de SST.​


Ambientes com baixa segurança psicológica tendem a ocultar incidentes, subnotificar problemas e dificultar a circulação de informações críticas, o que fragiliza o atendimento à NR-1. Em contrapartida, equipes que se sentem seguras para comunicar erros, quase-acidentes e condições inseguras colaboram para um gerenciamento mais efetivo dos riscos e para uma cultura de prevenção alinhada ao espírito da norma, aproximando a agenda de saúde mental e clima organizacional das obrigações formais de gestão de riscos.​


Princípios de aplicação no ambiente corporativo


Transformar segurança psicológica em prática exige um movimento deliberado da liderança e da cultura organizacional. Alguns princípios-chave, inspirados nas proposições de Amy Edmondson e em pesquisas sobre equipes de alta performance, ajudam a traduzir o conceito em ações concretas.​


  • Enquadrar o trabalho como um desafio de aprendizado, não de execução perfeita
    Líderes podem explicar que o contexto é incerto, que não há todas as respostas e que o trabalho exige experimentação, o que naturalmente envolve erros. Essa forma de enquadrar reduz a fantasia de que “bons profissionais não erram” e abre espaço para uma postura de aprendizagem contínua.​


  • Reconhecer a própria vulnerabilidade e limites
    Quando líderes admitem que não sabem tudo, pedem ajuda e acolhem feedback, sinalizam que é legítimo não ter todas as respostas e que a contribuição dos demais é bem-vinda. Esse movimento modela o comportamento esperado e diminui o medo de exposição entre os membros da equipe.​


  • Convidar ativamente a participação e a divergência
    Edmondson enfatiza a importância de perguntas como “O que estamos deixando de ver?”, “Quem discorda?” ou “Que riscos não mapeamos ainda?”. Não basta dizer que “a porta está aberta”; é preciso criar espaços e rituais em que opiniões, dúvidas e críticas sejam realmente solicitadas e levadas a sério.​


  • Responder de forma construtiva quando alguém se expõe
    A segurança psicológica é construída no momento da resposta: se alguém traz um erro, um risco ou uma crítica e encontra humilhação, ironia ou silêncio, a mensagem implícita é “não faça isso de novo”. Respostas focadas em curiosidade, investigação conjunta e aprendizado (“o que podemos aprender com isso?”) fortalecem o clima de confiança.​


  • Equilibrar segurança com accountability e clareza de metas
    Times de alta performance combinam segurança psicológica com objetivos bem definidos, indicadores de resultado e responsabilidade compartilhada. Nessa lógica, errar não é banalizado, mas tratado como informação valiosa para aprimorar processos, produtos e decisões.



Práticas concretas para implementar segurança psicológica em busca de alta performance


No dia a dia corporativo, segurança psicológica pode ser traduzida em práticas objetivas que impactam diretamente a produtividade. Elas podem ser organizadas em três níveis: liderança, equipe e organização.​


No nível da liderança

  • Conduzir reuniões de forma a garantir voz a todos, evitando que apenas poucas pessoas dominem a fala, e incentivando explicitamente contribuições divergentes.
  • Implementar rotinas de feedback frequentes, com foco em comportamentos e processos, não em ataques pessoais, reforçando que o objetivo é o aperfeiçoamento coletivo.


No nível da equipe

  • Realizar retrospectivas ou debriefings após projetos ou ciclos importantes, discutindo o que funcionou, o que não funcionou e o que será ajustado, sempre evitando “caça às bruxas”.​
  • Criar acordos de convivência explícitos (normas de equipe) que incluam respeito à fala, escuta ativa, não interrupção e direito de discordar, para que o grupo saiba qual é o padrão de interação esperado.​


No nível organizacional

  • Alinhar políticas de reconhecimento e gestão de desempenho com comportamentos de abertura, colaboração e aprendizado, valorizando não apenas resultados, mas também a forma de alcançá-los.​
  • Investir em programas de formação de lideranças que integrem temas como vulnerabilidade, comunicação não violenta, mediação de conflitos e saúde mental, criando coerência entre discurso e prática.


Segurança psicológica corporativa, articulada tanto com a alta performance quanto com marcos normativos como a NR-1, deixa de ser apenas um “tema de clima” e se torna um componente estratégico da gestão de riscos, da produtividade e da sustentabilidade das organizações.



Ao olhar hoje para a sua organização, o medo de falar a verdade está custando quanto em erros ocultos, adoecimentos silenciosos e oportunidades perdidas de alta performance?


Eu sou Márcia Morais Ávila, apaixonada por ensinar tudo o que aprendo, e consciente de que a minha vida tem um propósito de Deus a ser cumprido.