Somos Todas Neuróticas?
Uma leitura psicanalítica sobre o sofrimento feminino

Outro dia, em uma conversa, eu disse a seguinte frase: “somos todas neuróticas”. Quem me escutou ficou imediatamente assustada. E isso é compreensível.
O desconforto, no entanto, não está propriamente em acreditar ou discordar dessa afirmação, mas em admitir que, em algum momento da vida, somos, de fato, neuróticas. O que mais assusta, muitas vezes, não é a palavra em si, mas não compreender o conceito real de neurose, que, na psicanálise, está muito distante da ideia de loucura ou descontrole, que a sociedade nos impõe.
Em algum momento da vida, quase todas nós já nos fizemos perguntas silenciosas e profundas: “Por que eu sinto tanto?”, “Por que isso me afeta assim?” ou “Por que parece que nunca estou completamente em paz?”
A psicanálise oferece respostas a essas inquietações sem romantizar a dor — e, ao mesmo tempo, sem patologizar a experiência humana.
Na perspectiva da psicanálise freudiana, viver em sociedade implica renúncias, adaptações e conflitos internos. Por isso, todos somos, em alguma medida, um pouco neuróticos. Essa afirmação não é um diagnóstico pejorativo, mas uma constatação profunda sobre o funcionamento psíquico.
O que é neurose, afinal?
De forma simples, neurose é o nome que Sigmund Freud deu ao sofrimento que nasce do conflito entre desejo e proibição entre o que sentimos e desejamos e aquilo que aprendemos que “pode” ou “não pode”.
Não se trata de loucura nem de perda de contato com a realidade, mas de um modo sofrido de lidar com emoções, medos, culpas e desejos que não encontram um espaço legítimo para existir.
Para Freud, a neurose surge quando o eu precisa negociar constantemente entre o impulso de prazer e a necessidade de se adaptar às normas, aos vínculos e às expectativas externas. É o clássico “eu quero, mas não posso” e, ao mesmo tempo, “não posso, mas não consigo apagar o que sinto”.
Quando esse conflito não pode ser pensado ou simbolizado, ele tende a se transformar em sintoma: ansiedade, inibições, pensamentos repetitivos, fobias ou dores no corpo sem causa médica aparente.
A psicanálise nunca prometeu felicidade plena. Freud foi direto ao afirmar que o objetivo do processo analítico é transformar a miséria neurótica em infelicidade comum.
Isso significa sair de um sofrimento paralisante, repetitivo e sem saída para uma dor humana possível, aquela que permite escolhas, vínculos, desejo e movimento. O conflito não desaparece, mas deixa de governar a vida de forma tirânica.

As formas clássicas da neurose
Freud descreveu manifestações principais da neurose:
- Histeria: o conflito aparece no corpo, dores, sintomas físicos, paralisações, como se o corpo dissesse o que a palavra não conseguiu expressar.
- Neurose obsessiva: o sofrimento se revela por pensamentos insistentes, rituais, necessidade excessiva de controle e culpa.
- Fobias: o medo se fixa em algo externo, um objeto ou situação, tentando dar forma a uma angústia interna difusa.

Afinal “Somos todas neuróticas?” de mulher para mulher
Se compreendermos a neurose como sofrimento ligado a conflitos afetivos, desejos contrariados e exigências internas impossíveis, a resposta é: sim, somos todas um pouco neuróticas.
Isso se manifesta quando uma mulher se sente culpada por descansar, por dizer “não”, por desejar prazer, sucesso ou autonomia, como se precisasse escolher entre ser amada e ser fiel a si mesma.
A mulher dividida
Na clínica e na vida cotidiana, a neurose feminina costuma surgir nesse lugar de divisão: ser a boa filha, a boa mãe, a boa esposa, a boa profissional, enquanto o corpo e o desejo pedem descanso, autenticidade e escolhas próprias.
Quando o eu vive apenas para sustentar a expectativa do outro, o custo emocional tende a ser alto: ansiedade, insônia, somatizações, crises de choro e um vazio persistente, mesmo quando, externamente, “está tudo certo”.
Culpa, desejo e silêncio
Freud demonstrou que muitos sofrimentos neuróticos nascem de desejos reprimidos e não apenas de desejos sexuais.
Desejo de ter voz, autonomia financeira, de se separar, de não ser mãe, de ser mais, de ser diferente. Quando esses desejos não podem sequer ser pensados ou nomeados, encontram outras vias de expressão: sintomas, irritabilidade, autossabotagem e repetições afetivas que conduzem sempre ao mesmo ponto de dor.

Neurose não é fraqueza
Na psicanálise, a neurose não é um rótulo de fragilidade. Ela indica que o sujeito sente, deseja, se defende, erra, recua e tenta novamente.
O que realmente importa não é ter ou não traços neuróticos, mas o quanto eles engessam a vida, os relacionamentos e a capacidade de sentir prazer e criar novos caminhos.
O espaço terapêutico como lugar de respiro
Na análise e na psicoterapia, a mulher encontra um espaço onde pode falar sem julgamento. Ali, crenças rígidas começam a ser questionadas:
“Eu tenho que dar conta de tudo.”
“Se eu me priorizo, sou egoísta.”
“Se eu mostrar fraqueza, serei abandonada.”
Quando o sintoma vira palavra, a neurose deixa de ser apenas prisão e pode se transformar em processo de autoconhecimento e reorganização emocional.

Sim, somos neuróticas e podemos elaborar
Fazer psicanálise, terapia ou psicoterapia é um caminho profundo de elaboração psíquica. Em alguns momentos, a psiquiatria também é necessária e fundamental para auxiliar no equilíbrio químico por meio da medicação.
Contudo, é importante compreender:
o remédio pode estabilizar, mas não elabora. Ele não ressignifica traumas, não organiza a história emocional, não reconstrói sentidos.
A verdadeira transformação acontece quando aquilo que dói pode ser pensado, simbolizado e integrado à história de vida.
Se somos todas um pouco neuróticas, o convite não é “deixar de ser”, mas aprender a conviver melhor com o que nos habita, com menos culpa, menos solidão e mais liberdade para ser quem se é.
Eu sou Márcia Morais Ávila, apaixonada por ensinar tudo o que aprendo, e consciente de que a minha vida tem um propósito de Deus a ser cumprido.
