BBB 26: O Maior Laboratório Social do Século XXI

Márcia Morais Ávila • 27 de fevereiro de 2026

Reality Show, Saúde Mental e Subjetividade em Rede Nacional


Vivemos uma época em que a vida psíquica deixou de ser apenas vivida para ser exposta, observada e julgada em tempo real. A fronteira entre intimidade e espetáculo tornou-se cada vez mais tênue, e os dispositivos midiáticos passaram a ocupar um lugar central na construção das narrativas sobre comportamento, moralidade e saúde mental. Nesse cenário, os reality shows deixam de ser apenas entretenimento e passam a operar como verdadeiros laboratórios sociais, nos quais emoções, conflitos e vínculos são intensificados sob a vigilância permanente do olhar coletivo.


O Big Brother Brasil 26 insere-se nesse contexto como um dos mais expressivos experimentos contemporâneos de exposição humana. Ao confinar sujeitos sob observação contínua, o programa mobiliza afetos primários, ativa mecanismos de defesa arcaicos e evidencia fragilidades emocionais que, fora desse ambiente, permaneceriam mais tempo protegidas pelo cotidiano. O que se revela não é apenas o “jogo”, mas o funcionamento psíquico do sujeito diante da pressão, da exclusão, do desejo de pertencimento e do julgamento social.


Confinamento, jogo e intensificação das pulsões


Sigmund Freud descreveu as pulsões como forças fundamentais que buscam satisfação e entram em conflito no laço social. No BBB26, o confinamento atua como um amplificador pulsional. Desejos de pertencimento, medo da exclusão, rivalidade narcísica e agressividade emergem de forma intensificada, muitas vezes sem o filtro simbólico necessário para a elaboração emocional.


Quando um participante afirma:


“Se a gente não partir para o confronto, vamos parecer passivos no jogo”


Observa-se como o sofrimento emocional rapidamente se converte em estratégia defensiva. O confronto deixa de ser apenas uma jogada e passa a funcionar como tentativa de preservação do self diante da ameaça de apagamento simbólico.


Em outro momento, ao ironizar uma colega como “a administradora do jogo, que decide quando as pessoas comem e bebem”, evidencia-se a vivência de controle e invasão, experiências comuns em contextos onde a autonomia subjetiva se encontra fragilizada.




Violência simbólica e falas que rompem o campo ético


O BBB26 também expôs falas que ultrapassaram o campo do jogo e tocaram em feridas sociais profundas. A declaração polêmica “Eu nasci do prazer, não de estupro” gerou ampla repercussão pública por mobilizar, de forma agressiva, o tema da violência sexual e da revitimização.


Do ponto de vista psicanalítico, esse tipo de manifestação pode ser compreendido como acting-out — uma descarga pulsional que ocorre quando o sujeito não consegue simbolizar afetos intensos. Em ambientes de confinamento e vigilância constante, a palavra deixa de operar como mediação simbólica e passa a funcionar como ataque. O jogo se mistura à descarga emocional, e a ética cede espaço à sobrevivência psíquica.




Diagnósticos leigos, rótulos e psicofobia


Outro fenômeno recorrente observado no BBB26 é o uso indiscriminado de termos psicológicos como forma de julgamento moral: “surtado”, “bipolar”, “psicopata”, “não é normal”. Esses rótulos aparecem tanto dentro da casa quanto nas redes sociais, reforçando uma cultura de diagnóstico leigo.


A Psicanálise sustenta que nenhuma nomeação diagnóstica é possível sem tempo, escuta, transferência e responsabilidade ética. Quando o sofrimento psíquico é reduzido a rótulo, ele deixa de ser compreendido e passa a justificar exclusão, cancelamento e punição simbólica.


O BBB26 como espelho da sociedade da vigilância


O reality explicita o funcionamento de um superego coletivo, operado por enquetes, hashtags, cortes de vídeo e julgamentos instantâneos. O sujeito deixa de se perguntar “o que eu desejo?” e passa a se perguntar “como serei visto?”. A identidade torna-se performática, regulada pelo medo do cancelamento e pela necessidade constante de aprovação. É nesse ponto que a realidade vivida no BBB26 encontra uma ponte simbólica com a ficção.



Quando a ficção antecipou o real: O Show de Truman


Muito antes da consolidação dos realities como fenômeno global, o cinema já havia antecipado seus impactos psíquicos. O Show de Truman – O Show da Vida apresenta Truman Burbank, um homem cuja existência inteira é transformada em espetáculo sem que ele tenha consciência disso.


A frase do diretor do programa, Christof, sintetiza essa lógica:


“Nós aceitamos a realidade do mundo que nos é apresentada.”


Essa afirmação ecoa diretamente no BBB26. Participantes e espectadores passam a naturalizar a vigilância contínua, o julgamento público e a exposição emocional como algo normal, aceitável e até desejável.


Truman, em determinado momento, verbaliza:


“Tem alguma coisa errada com o mundo.”


Essa sensação de estranhamento é semelhante à vivida por participantes que começam a perceber o custo psíquico da exposição contínua.




Neuropsicanálise, trauma relacional e falso self


Do ponto de vista neuropsicanalítico, Truman vive um trauma relacional crônico, assim como participantes de realities submetidos à vigilância constante. A amígdala permanece em estado de alerta, o cortisol se mantém elevado e o córtex pré-frontal perde capacidade de regulação emocional e empática.


A leitura winnicottiana mostra que Truman desenvolve um falso self altamente adaptado a um ambiente intrusivo. Apenas quando o ambiente falha — uma luz que cai do céu, repetições incoerentes — o verdadeiro self começa a emergir. No BBB26, quando participantes “quebram o personagem”, choram ou entram em colapso, não estão falhando: estão expressando o conflito entre adaptação extrema e autenticidade subjetiva.


A fala final de Truman simboliza esse ato psíquico de separação do Outro:
“Caso eu não os veja novamente: bom dia, boa tarde e boa noite.”




Saúde mental não é espetáculo


Em 2026, o sofrimento psíquico não está apenas nos indivíduos, mas na forma como a sociedade observa, julga e consome o outro. A saúde mental, quando transformada em espetáculo, perde complexidade e se torna instrumento de moralização e exclusão.


Dados oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mais de 1 bilhão de pessoas vivem atualmente com algum transtorno mental, sendo ansiedade e depressão algumas das principais causas de incapacidade funcional no mundo. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam crescimento expressivo nos índices de sofrimento psíquico e nos afastamentos laborais relacionados à saúde mental.


Esses números reforçam que saúde mental não pode ser tratada como conversa superficial, opinião de rede social ou julgamento midiático. Trata-se de uma questão de saúde pública, que exige formação, escuta qualificada, responsabilidade ética e compromisso com o cuidado humano.




Considerações finais


O BBB26 e O Show de Truman revelam que o reality show contemporâneo funciona como um poderoso dispositivo psíquico de exposição, controle e produção de subjetividade. A ficção antecipou o real, e o real passou a reproduzir a ficção. O sofrimento não nasce apenas no indivíduo, mas na forma como a sociedade escolhe olhar, interpretar e consumir o outro.


Este estudo foi elaborado especialmente para meus alunos, para profissionais da área da saúde mental e para todas as pessoas que se interessam por conteúdo acadêmico, ético e aprofundado sobre saúde mental.


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Material de Estudo

Eu sou Márcia Morais Ávila, apaixonada por ensinar tudo o que aprendo, e consciente de que a minha vida tem um propósito de Deus a ser cumprido.