Análise psicanalítica do filme: "Era Uma Vez um Sonho"
“Era Uma Vez um Sonho” nos apresenta a história de J.D. Vance, mas, para um olhar psicanalítico, o verdadeiro protagonista do filme é a trama familiar que o constitui.

A infância marcada por precariedade, explosões de violência, adição e instabilidade afetiva vai moldando, silenciosamente, o modo como esse sujeito aprende a amar, a se defender e a sonhar. Não se trata apenas de uma biografia de superação; trata‑se de uma narrativa sobre como o sujeito se torna aquilo que pôde ser, a partir das marcas inscritas nos laços que o cercaram.
A mãe adicta, oscilante entre cuidado e destruição, encarna o lugar de um amor profundamente ambivalente: ama, mas fere; pede ajuda, mas ataca; aproxima‑se, mas ameaça desmoronar a qualquer momento. Para um filho, crescer nesse cenário significa aprender que amar é, também, administrar o imprevisível, carregar culpas, tentar controlar o incontrolável. Já a avó, com sua dureza e sua forma particular de proteger, surge como uma espécie de eixo: ao mesmo tempo em que transmite um supereu severo, oferece alguma estrutura para que J.D. encontre um “chão” interno. A família, assim, aparece como laboratório afetivo onde se ensaia, muitas vezes de forma dolorosa, a construção do eu.

Do ponto de vista psicanalítico, o filme é um retrato potente da transmissão geracional do trauma. Os sintomas não nascem no vazio: eles carregam histórias que vêm de antes do sujeito, histórias que ele, sem saber, é convocado a repetir. Violência, adição, negligência, humilhações silenciosas – tudo isso circula como um legado invisível. Quando vemos J.D. dividido entre “salvar” a mãe e cuidar da própria vida, estamos diante de um conflito típico de quem tenta, ao mesmo tempo, ser fiel à família e romper com um destino repetitivo. É a tensão entre lealdade ao passado e responsabilidade consigo mesmo.
É justamente aqui que a clínica entra. Eu sempre digo: precisamos ver além da história que o cliente traz para a clínica; devemos escutar a sua narrativa, acima de tudo. O filme nos lembra que o que chega ao consultório não é apenas um relato linear de fatos, mas uma forma singular de contar – com lacunas, silêncios, justificativas, culpas, idealizações e omissões. Cada evento narrado pelo paciente carrega, por baixo, uma rede de sentidos: quem foi protegido, quem foi acusado, quem foi invisibilizado, que cenas se repetem com novos personagens, que dores são “naturalizadas” como se fossem apenas parte da vida.

Toda narrativa, em seus eventos, conta sempre uma história maior do que aquilo que é dito. É essa história não dita – mas insinuada na maneira de falar, nos afetos que emergem, nos tropeços da fala – que constitui a base da escuta analítica. Quando um paciente fala da mãe “difícil”, do pai “ausente”, da avó “dura mas justa”, ele está, na verdade, descrendo o cenário interno em que seu eu se constituiu. Por isso, mais do que buscar coerência factual, o trabalho analítico é se deixar tocar pela lógica afetiva da narrativa: como esse sujeito se coloca na trama? Salvando, reparando, sendo vítima, sendo culpado, sendo aquele que precisa dar certo para justificar o sacrifício de todos?

Em sua “cereja final”, o filme convoca uma frase atribuída a Jean‑Paul Sartre, reinterpretada pelo protagonista:
“Não importa o que fizeram com você; o que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”.
Essa formulação, lida psicanaliticamente, não é um convite à negação do trauma nem à culpabilização individual, mas à responsabilidade subjetiva: reconhecer que, embora não tenhamos escolhido as cenas fundamentais da nossa história, podemos escolher como nos posicionamos diante delas. Não se trata de apagar o passado, e sim de encontrar um lugar menos passivo frente ao roteiro herdado, abrindo brechas para outros desfechos.

“Era Uma Vez um Sonho” nos recorda que ninguém chega à clínica sozinho: chegam com ele suas vozes internas, seus fantasmas familiares, seus pactos silenciosos. Ao acompanhar a trajetória de J.D., podemos pensar em quantos pacientes vivem exatamente essa tensão entre permanecer leal às expectativas da família e construir um caminho próprio. A função do analista não é dizer qual escolha é “correta”, mas criar um espaço onde essa narrativa possa ser recontada, ressignificada, desmontada e reconstruída – para que o sujeito, pouco a pouco, deixe de ser apenas personagem da história que herdou e possa tornar‑se autor de novas versões de si.

No fim, o filme nos oferece uma metáfora preciosa da clínica: por trás de cada “história de vida” há uma escrita inconsciente sendo repetida. Escutar analiticamente é reconhecer que o que o paciente conta é sempre mais do que ele pensa estar contando. E é nesse “além” da história aparente – nesse território onde a narrativa se faz e se desfaz – que se abre a possibilidade de transformação.
E você, se pudesse escrever a sua história como um filme, qual enredo seria a base da sua narrativa?
Material de Estudo
Eu sou Márcia Morais Ávila, apaixonada por ensinar tudo o que aprendo, e consciente de que a minha vida tem um propósito de Deus a ser cumprido.
